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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Gotas de saudade chovendo no nosso jardim

Essa saudade enorme que dilacera meu peito, é algo intenso e sofrido, porque o problema não são as lembranças, mas a ideia de que novas lembranças não serão mais sentidas, feitas, filmadas e convividas. Pensar num passado tão presente é algo que ainda caminha a passos pequenos em casa. aos poucos a rotina vai mudando, e ele continua presente de outras formas. Todo dia vejo seu quartinho dentro do meu quarto, e isso não quero mudar, suas coisas todas lá, não tem nada de mais nem de menos, simplesmente ele viajou e agora não vejo mais como antes, mas posso senti-lo, conversar com ele, mas ainda tento me acostumar, uma coisa sei, aceitar jamais, apenas entender que tudo aconteceu.


Aos poucos vou postando vídeos, fotos, alguns registros que estava acostumada a postar aqui, confesso que me desliguei da internet desde ano passado, porque minha mãe precisou muito de nós, e nesses momentos internet fica em segundo plano, a vida real não espera, mas mesmo me mantendo um pouco afastada daqui, este cantinho continuava e sempre vai continuar com as publicações desse meu menino travesso, que meu pai (vô) sempre disse "Fale meu comandante, cheguei meu garanhão", e meu neném sempre recebeu sorrindo, esperando ele entrar na sala e vir a seu encontro, atento desde momento que o portão se abria e o carro entrava na garagem. Sempre foi assim. Minha mãe sempre falou "cadê o cheiro da vovó? Só a vovó que cheira", e ele ficava todo envergonhado pq já não era tão bebê assim, um pré-adolescente, transpirando puberdade, com leve bigode começando a aparecer, pelos nas pernas, axilas, enfim, todo na fase de menino de 12 anos cheio de testosterona, puberdade essa que começou a aparecer aos 9 anos, precoce, mudando sua voz, e as vezes até não queira mais aqueles beijinhos de neném, mas contendo humor oscilando entre ser um bebê e um rapazinho. Parar pra falar dele é muita coisa, nossa, vocês não tem ideia da nossa rotina, de uma criança amável, dócil, brincalhona, risonho e teimoso, muito observador e atento a tudo e a todos.

Sempre chamava atenção por onde passava, não só por ser cadeirante, mas sim pelo jeito dele, a maneira como nós sempre cuidamos dele e suas coisas, ele sempre com sorriso meia boca que lançava um ar de galanteador, e atraia sempre olhares curiosos de pessoas que queriam saber mais dele, entender porque ele ficou cadeirante e mais ainda, entender porque mesmo sendo cadeirante e com paralisia cerebral tinha uma personalidade e um jeito de criança como qualquer outra comum, mas sem sofrimento, na verdade sofrer pra que se era feliz? O que é felicidade? Ele sempre deixava um ar de força e esperança que ninguém conseguia explicar em totalidade. Vivenciamos isso naturalmente.